Eu não virei monge. Continuo reclamando do despertador, bebendo whisky nos fins de semana (e às vezes na terça), xingando no trânsito e procrastinando o que posso.
Mas, sinceramente? Hoje eu surto menos. E só isso já vale mais que qualquer mantra tibetano.
Minimalismo, pra mim, não veio num kit com tapete de yoga, incenso de lavanda e fonte zen. Veio na forma de um basta meio engasgado. Um “chega dessa merda” sussurrado no meio de uma crise de ansiedade, entre uma notificação desnecessária e um pensamento obsessivo sobre tudo o que eu não estava conseguindo controlar.
Não foi bonito.
Foi prático. Foi real. Foi a vida me mostrando que se eu não simplificasse, eu ia colapsar.
Acho engraçado quando as pessoas acham que minimalismo é só sobre ter poucas coisas. Tipo “olha meu guarda-roupa com três camisetas e dois chinelos, sou uma alma livre”. Beleza, bacana, mas isso é só a superfície.
O que me salvou não foi doar roupa. Foi parar de me importar com gente que nem sabe se eu tô vivo.
Foi deixar de seguir 200 conhecidos no Instagram que só apareciam pra exibir um estilo de vida que eu nem queria — mas que, por algum motivo, me fazia sentir atrasado.
Foi excluir grupo de WhatsApp onde ninguém se importa de verdade, mas todo mundo tem opinião sobre tudo.
Foi ter coragem de admitir que algumas “amizades” só existiam porque eu não tinha energia pra dizer que não queria mais papo. E aí eu disse.
Com jeitinho, claro. Mas disse. E, rapaz… que paz.
O minimalismo me ajudou a parar de surtar com as pequenas coisas que, somadas, viram um monstro de sete cabeças que rouba o nosso sono.
Sabe aquela colher fora do lugar que parece um símbolo de desorganização total?
Aquela notificação que te faz sentir culpado por não responder na hora?
Aquela comparação inútil que você faz com alguém da internet que nem sabe da sua existência?
Tudo isso, eu comecei a cortar.
E, veja bem, não é porque eu sou evoluído. É porque eu cansei.
Cansei de pensar demais.
Cansei de acumular pendências emocionais.
Cansei de me sabotar tentando ser multitarefa enquanto me arrastava feito um zumbi motivado por café e culpa.
Hoje minha casa tem menos coisas.
Minha cabeça também.
E quando alguém entra e diz “nossa, tá tudo tão vazio aqui”, eu sorrio por dentro. Porque só eu sei o quanto eu precisei esvaziar pra caber em mim de novo.
E mesmo com um sofá gigantesco no meio da sala — que não tem nada de minimalista, mas tem tudo de aconchego — minha vida ficou mais leve. Porque o sofá é escolha. Não é acúmulo. E essa diferença muda tudo.
Minimalismo não me transformou num ser iluminado que respira gratidão e responde tudo com “estou em paz”.
Mas me deu discernimento.
Me deu tempo.
Me deu um espaço interno onde posso sentar (às vezes com o copo de whisky, às vezes com um bom livro) e simplesmente existir sem o peso de agradar o mundo.
É isso.
Não virei monge.
Mas hoje, quando a vida vem com seus dramas de prateleira, eu olho, respiro, e digo: “Não, obrigado. Já tenho tralha suficiente aqui dentro.”
Você não precisa virar uma versão zen de si mesmo pra ter paz. Às vezes, só precisa parar de carregar o que nunca foi seu.